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Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim

Os trabalhos ora apresentados sob o título Em Série são uma decorrência da pesquisa que denominei Descartável e que vem sendo desenvolvida nos últimos três anos. Em Descartável o foco era a transitoriedade de certos produtos feitos com objetivo de serem imediatamente descartados, logo após o uso. Ao trabalhar com estes objetos, constatei que estava interrompendo uma linha de tempo muito curta entre sua utilização e descarte. Essa percepção me fez refletir sobre o quanto levamos para nosso modo de vida essa atitude de encarar tudo como facilmente descartável. O quanto não consideramos o resultado desse descartar tanto no meio ambiente quanto nas atitudes com outros seres humanos.

No desenrolar do trabalho fui me atendo à forma dos objetos, principalmente o da colher descartável, utilizando a repetição da mesma, em diferentes composições. Passei então, a observar outros objetos produzidos em série, não exatamente descartáveis, mas, da mesma maneira, transitórios. Objetos que, no desempenho de sua função, não nos chamam a atenção por sua forma, mas pela informação que contém. As etiquetas, agora, fazem parte dos trabalhos. Sobre postas a imagens digitalizadas, sofrem alterações no seu conjunto visual, conforme a maneira como são utilizadas. O foco passa a ser a produção em série, a massificação, a uniformização.
O processo de impressão digital já traz a idéia da produção em série. Reforça a tão propagada questão da reprodutibilidade técnica da obra de arte, em contraponto ao caráter único da mesma, tratado por Walter Benjamin. O processo digital, aqui, não é utilizado apenas para reproduzir a imagem de uma obra original, mas tratado como ferramenta de criação. Revela temas como o da produção em série de objetos de culto, como o trabalho intitulado “Crucifixo para Espelho Retrovisor”, que pensa os conceitos de valor de culto e valor de exposição, numa sociedade massificada. Esses conceitos de transitórios e descartáveis trazem à tona questionamentos que vão muito além das necessidades demandadas. Alertam para o fato da transitoriedade ter se inserido na contemporaneidade, ora como elemento facilitador, ora como elemento descartável e, até mesmo como fator desencadeante da banalização. Se por um lado, facilita, por outro, inconteste, aumenta nossa responsabilidade no sentido de provocar atitudes que façam a diferença para melhor. Esse trabalho dos “Em Série” pretende, de certa forma, chamar a atenção para situações absolutamente habituais no nosso cotidiano e que, por essa mesma habitualidade, podem se tornar imperceptíveis. Perceber pode ser o início da diferença.

Rosana Almendares
2007