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NOTICIÁRIO – 10-2020

Posted on out 15, 2020

O Homem e a natureza

A relação homem/natureza está intimamente ligada as diferentes compreensões que desenvolvemos no decorrer da nossa história sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

 

Na Antiguidade Grega a palavra physis, trazia dentre toda sua complexidade de sentidos, a ideia de ser o elemento primordial da Natureza, eterno e em perene transformação, não existindo o fora da physis, tudo fazendo parte de uma mesma relação de acontecimentos e transformações.

A filósofa e historiadora Virginia Fontes, em depoimento para TV Boitempo, (1 de fev. 2019) fala da relação sócio-metabólica entre natureza e os seres que nela habitam, que significa que aquilo que os seres naturais e os seres humanos transformam da natureza, precisa voltar para ela de forma a nutri-la, mesmo que de forma modificada, mas que possibilite que a natureza possa continuar mantendo a capacidade de fornecer aquilo que precisamos para nos nutrir.

Hoje o homem não tem o mesmo temor em relação à natureza que tinha no passado, temor em relação aos raios, às tempestades, secas e tantas catástrofes.   Hoje o maior medo está em como a sociedade capitalista insiste em não reconhecer a relação sócio-metabólica necessária para a sobrevivência do próprio homem na natureza. O ser capitalista não reconhece que a natureza vai continuar mesmo depois do fim da existência do homem. Será uma natureza transformada pela ação do homem, uma natureza que, provavelmente, não permitirá mais a existência do homem, mas, será um tipo de natureza. A continuarmos a exploração descontrolada dos recursos naturais, ao continuarmos com o uso abusivo dos agrotóxicos, ao continuarmos poluindo terra, ar e água, insistimos em não reconhecer que estamos terminando com a possibilidade de existência do homem sobre a terra.

Os movimentos de conscientização desta atitude devastadora do ser humano em relação ao meio ambiente, têm início no pós-Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de pesquisadores passa a usar argumentos científicos para alertar a sociedade dos riscos que o planeta enfrentava diante da degradação ambiental e do elevado crescimento populacional. Esses textos serão fundamentais para os movimentos ambientalistas que alcançarão grande expressão nos anos 1960-70.  Sobre isso o artigo O ambientalismo em três escalas de análise de Fabiano Quadros Rückert, publicado nos Cadernos IHU (nº51-2015) traz um ótimo apanhado histórico sobre ambientalismo no mundo, no Brasil e também na cidade de São Leopoldo.

No Brasil, um dos pioneiros no estudo do ambientalismo foi o sociólogo Eduardo Viola (professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, desde 1993). Diz Rückert em seu texto: Viola refere-se à “fase fundacional” do ambientalismo brasileiro (1971-1987) como um período de “ingenuidade e ignorância” sobre o desenvolvimento sustentável. Mas na fase seguinte (1988-1991) a dicotomia entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental vai cedendo espaço para aproximações entre ecologistas, cientistas, economistas e políticos.

Em São Leopoldo Rückert destaca o trabalho de Henrique Luiz Roessler, e trata da dimensão científica e do pensamento de Carlos Aveline e Arno Kayser, dois importantes líderes do ativismo ambiental na região. Tem como ponto de partida para suas reflexões o livro  A Fisionomia do Rio Grande do Sul  do Padre Balduíno Rambo, S.J., publicado pela primeira vez em 1942, que na época já advertia sobre a necessidade de preservação da natureza e registrava sua preocupação com a degradação dos ambientes naturais no Rio Grande do Sul. Outro nome citado é o do Padre Pedro Calderan Beltrão, S.J., um dos pioneiros no estudo da Ecologia Humana na região do Vale do Sinos.

Não se pode deixar de citar o papel significativo da UNISINOS que inicia seu envolvimento com o ambientalismo nos anos 1960 e só se intensifica a partir daí com cursos, simpósios e publicações. Na Educação Básica e no Ensino Médio da região Rückert destaca o trabalho de João Ignácio Daudt, professor de Ciências e membro da AGAPAN-NL, posteriormente UPAN. Nos anos 1970, Daudt lecionou no Colégio São José e na Escola Técnica Pedro Schneider e organizou Clubes de Ciência voltados para estudo da poluição do rio dos Sinos.

Para nos contar mais um pouco sobre o ambientalismo e sobre o surgimento da UPAN em São Leopoldo, convidamos o historiador e ambientalista, Márcio Linck.

Entrevista

Márcio Linck

Historiador, ambientalista, escritor, músico, ativista em defesa da libertação animal e um idealista por um mundo mais ético, justo e sustentável. Participa da UPAN – União Protetora do Ambiente Natural desde 1986. Atua em defesa da libertação animal e da conscientização e respeito a todas as formas de vida através de palestras, vídeos, artigos em jornais e sites. Formado em História pela UNISINOS, dedica-se à genealogia. Foi diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo no período de 2011 a 2016. Como defensor do patrimônio histórico e cultural de São Leopoldo ajudou a evitar que prédios e monumentos históricos fossem demolidos e contribuiu na recuperação dos prédios e restauração dos vagões, locomotivas e peças do Museu do Trem. Autor do Livro Para Além do Ambientalismo – Uma História em Duas Décadas, que reúne uma seleção dos artigos publicados no Jornal Vale do Sinos entre 1988 e 2008. Foi professor de música até 2006 – Escolas Musisinos e Sinosmúsica.

A atuação direta de Márcio Linck na defesa do meio ambiente vem desde 1986 quando ingressou na UPAN, participando da campanha pela recuperação do Rio dos Sinos.

Esta campanha, conforme nos conta, envolvia sete pontos: 1-Tratamento primário dos efluentes das indústrias de curtume. Na época o setor dos curtumes era o maior responsáveis pela poluição do rio; 2- Tratamento secundário que permitia a recuperação biológica dos efluentes gerados pelos curtumes. Na época foi realizada uma intensa campanha em todo o Rio Grande do Sul para que as indústrias implementassem esses tratamentos, primário e secundário, dos efluentes. A bacia do Rio dos Sinos era uma das mais afetadas por essa poluição visto ser o setor coureiro calçadista, muito forte na região. 3- Tratamento de efluentes de outros setores indústrias; 4- Tratamentos dos antigos lixões a céu aberto, em áreas de proteção ambiental, próximos a arroios, banhados e do próprio Rio do Sinos, incentivando a criação de usinas de lixo. São Leopoldo tem uma das primeiras usinas de reciclagem, e muito se deve às lutas das UPAN; 5- Tratamentos dos efluentes de esgotos domésticos. São Leopoldo é uma das cidades que mais trata do esgoto doméstico, mesmo sendo uma porcentagem muito baixa, em torno de 15% a 20% dos efluentes; 6- Plantio de mudas de árvores, reflorestar as margens dos rios e arroios, proteger nascentes; 7- Criação de um consórcio da bacia dos Sinos, visando a proteção do rio, envolvendo entidades ambientalistas, órgãos do governo, empresas e instituições de ensino. Esse consórcio surge como ideia da UPAN e junto à campanha do Grupo Sinos intitulada SOS Rio dos Sinos, resultou no Comitê Sinos, primeiro Comitê de bacia do Brasil.

Outro pleito da UPAN foi a criação da Secretaria do Meio Ambiente o que ocorre em 1989, sendo a segunda a ser criada no estado (a primeira foi em Porto Alegre).

A UPAN deu continuidade ao trabalho de Henrique Luiz Roessler que na década de 1930, como funcionário da Capitania dos Portos, já fiscalizava o Rio dos Sinos em relação à pesca e à caça predatória, poluição do rio e desmatamento. Sua postura firme em defesa do meio ambiente provocou sérios embates resultando na sua demissão da Capitania.   Após sua saída Roessler funda a primeira ONG do Brasil, a UPN – União Protetora da Natureza – reunindo na época cerca de quatrocentos fiscais voluntários. Roessler faleceu em 1963, seu legado e seus ideais levaram a criação em 1971, em Porto Alegre, da AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural –  tendo também um núcleo em São Leopoldo. Essa unidade na nossa cidade, passa, a partir de 1988, a ser chamada UPAN – União Protetora do Ambiente Natural. Depois de anos de intensa atuação na UPAN, hoje Márcio Linck participa como conselheiro informal da entidade.

No tocante à violência contra os ambientalistas, Márcio comenta que a luta ambiental sempre foi muito incompreendida e Roessler teve uma atuação de vanguarda numa época em que hábitos, como por exemplo o da caça, eram tradição, principalmente fora do meio urbano. Era normal ter uma espingarda e crianças terem estilingue para matar passarinhos, assim como era normal jogar efluentes no rio. O embate direto contra esses hábitos arraigados levou Roessler, como ambientalista, a enfrentar muitas dificuldades à época.

Graças a persistência dos movimentos ecológicos pelo mundo a fora, existe hoje uma maior conscientização e o tema está mais presente na comunidade. Existe uma consciência no cidadão em relação a necessidade de preservação da natureza, de se colocar contrário ao desperdício de água, de reciclar o lixo, de não poluir o rio, enfim, de mudar antigos hábitos em busca de uma forma sustentável de vida. Porém, neste momento, estamos vivendo um retrocesso das questões ambientais do ponto de vista das políticas de governo, principalmente a nível federal, com desmantelamento dos órgãos de defesa do meio ambiente, como o Instituto Chico Mendes, o IBAMA, o INPE, para citar apenas três, e com o discurso oficial  de encorajamento da destruição da Amazônia e do Pantanal por parte da grilagem de terras, da agropecuária irresponsável, dos madeireiros, do garimpo ou ataque às comunidades indígenas e invasão de seu território por parte daqueles que sempre acharam que índio tem muita terra. Nesse sentido a violência contra os ambientalistas não se dá apenas de forma direta, mas também de forma velada através destes discursos contra quem defende a natureza e os que não têm voz.

Em relação a São Leopoldo, Márcio Linck aponta como principais questões a serem atendidas nos dias de hoje, em termos de preservação no meio ambiente, a preservação dos afluentes do Rio dos Sinos (arroios, nascentes, vertentes, olhos d’água) e nesse sentido a política urbana de ocupação do solo deve levar em consideração a importância de não invadir essas áreas de nascentes e vertentes; o tratamento do esgoto doméstico que hoje é o principal fator de poluição do rio; a conscientização de reduzir  os resíduos sólidos como, por exemplo , embalagens desnecessárias e a rearborização do perímetro urbano. Como ponto positivo Márcio cita a política em relação às áreas verdes, sendo o Parque Imperatriz Leopoldina uma conquista importante para a cidade. Existem outros parques preservados, como a Base Ecológica do Rio Velho, o Matinho do Padre Reus, porém o Horto Florestal está em situação preocupante e requer atenção. Outra questão é a ampliação das ciclovias que hoje não atendem a uma circulação ampliada na cidade e o consequente estímulo ao uso da bicicleta como transporte.

Márcio Linck encerra dizendo que em relação a preservação ambiental cada um de nós necessita fazer sua parte e nesse sentido as ações sustentáveis como redução de resíduos, procurar consumir produtos dos feirantes locais, movimentando nossa economia, valorizar os orgânicos e São Leopoldo possui feiras que oferecem esses produtos, são atitudes necessárias. Pensando nos dados da ONU que informam que no Brasil 2/3 da produção de gás do efeito estufa provém da pecuária, tanto pelas queimadas como pela geração de gás metano, e pensando nos efeitos deste setor na questão da Amazônia e no aquecimento global, uma atitude urgente é repensar os hábitos alimentares e reduzir o consumo de carne. Enfim, procurar impactar o menos possível o ambiente deve ser uma preocupação constante e para isso podemos nos nortear pelo lema: pensar globalmente e agir localmente.