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TEXTOS

Posted on jul 21, 2016

A QUEM INTERESSA UMA POPULAÇÃO SEM CULTURA?

Recentes notícias deram conta dos baixíssimos  índices de educação no Brasil o que nos faz pensar sobre qual  o interesse da classe política em melhorar a educação no país?

Tomando por exemplo Renan Calheiros, senador eleito pelo estado de Alagoas, fez carreira e fortuna sempre eleito por um dos estados com menor índice de alfabetização, índice que é medido, entre outros aspectos,  por capacidade de ler e COMPREENDER um enunciado simples. Por onde passa o interesse de um político que necessita do voto de pessoas sem a capacidade de interpretar, entender e refletir sobre um texto publicado por veículos de comunicação, na sua maioria na mão destes políticos. Passa longe com certeza.

Educação e cultura não estão separados. Fazem parte do mesmo conjunto de elementos de constituição do cidadão.

A quem interessa educação puramente técnica, excluindo dos currículos cursos de filosofia, sociologia e artes? A quem interessa manter o magistério como uma profissão pouco atrativa de forma que parte significativa de nossas melhores cabeças não sejam atraídas para esta carreira?

Nosso estado necessita de reformas sim. Necessita de reestruturação para que os segmentos fundamentais possam ser melhor atendidos pelo setor público. Resta saber o que é considerado fundamental. Para alguns setores na nossa sociedade a cultura é confundida com distração, entretenimento ou decoração. Outros têm a consciência de sua importância transformadora. Sabendo deste “perigo” lutam sempre pela destruição de aparelhos que visem difundir cultura de forma gratuita para todas as camadas da população. Acreditam que a produção cultural deva ser atribuída ao mercado, a iniciativa privada que saberá fazer com que ela dê lucro com produções de fácil compreensão e de apelo emocional em termos de novelas, programas de auditório e emissoras religiosas. Tudo realizado de forma que não leve a nenhum questionamento. Por aí entende-se bem o desejo de  extinção da fundação Piratini, TVE e FM Cultura que possui programação definida pela qualidade e não pelo mercado.

Uma verdadeira reestruturação de nosso estado passaria por uma discussão séria sobre todos os itens que constituem o pacote do Governador José Ivo Sartori. Mas discutir dá trabalho, exige ARGUMENTAÇÃO, exige bom senso. Muito mais fácil é destruir tudo para mostrar serviço a um governo federal que tem o maior interesse numa população funcional.

Destruir as estruturas de cultura e pesquisa e transformá-las em presídios. É isso  que está sendo imposto ao cidadão gaúcho. Aconselho que reforcem bem a segurança destes prédios, pois a cultura é o que retira o home do estado de barbárie, sem ela …. bom… é melhor que os prédios sejam muito bem reforçados.

 

Rosana Almendares
Artista visual
Especialista e Cinema e Design pela UNISINOS

Solange brinca com grilhões - Texto para Solange Caldas

Solange Caldas é daquelas artistas que materializa seu pensamento com facilidade e propriedade. Bem por isso sua produção não se limita a um único procedimento ou linguagem. Transitando entre desenho, pintura, colagem e objetos, Solange vai lançando mão de peças encontradas ou descartadas, linhas e tecidos para a realização de seu trabalho. Tudo serve e é bem utilizado para dar materialidade ao seu pensamento.

 

Essa liberdade que encontramos no processo criativo de Solange é próprio do que entendemos hoje como possibilidades do fazer artístico. Restringir a expressão do artista a uma única linguagem implicaria em não dar vazão a uma vasta gama de recursos, ideias e práticas tão diferentes entre si e tão ricas em significados.  Quando bem articulada pelo artista, e é o caso de Solange, esta diversidade de procedimentos resulta em trabalhos que levam a reflexão e ao deslocamento do lugar de acomodação.

Solange explora diferentes maneiras de criar, faz conexões com elementos heterogêneos, subtrai dos objetos sua função útil para dar-lhes valor de experiência, fazendo com que funcionem de maneira diversa, formando novas composições. Como escreve Cristina Pescuma em Arte como Jogo[i], (…) não se trata de adaptações ou justaposições , mas de produzir uma diferença de natureza”. Este jogo é marcado principalmente por elementos de repetição em variadas combinações, sempre abertas ao acaso, num exercício contínuo de criação  e de experimentação.

Na série mais recente de trabalhos intitulada “Brincando com grilhões”, Solange traz um conjunto de sapatos femininos de saltos muito altos, carregado de simbolismo e sensualidade. A artista envolve esses sapatos em uma trama que pode ser pensada como amarras femininas. Difícil não fazer relação entre os altíssimos saltos e os espartilhos que torturavam os corpos de mulheres na busca da apresentação de um corpo sensual. Assim como o abandono daquela peça representou um dos primeiros atos de libertação feminina, Solange ironiza os sapatos através das amarras, de enfeites coloridos, fitas ou flores.

Quando a criação artística questiona dogmas, hábitos e o senso comum, quando relativiza certezas e verdades absolutas nos colocando em estado de pensamento,  a arte cumpre seu papel. Nesse momento, o artista e sua obra nos faz sair da percepção consciente, realizar outras conexões e entrar em novas vibrações. Assim é o trabalho de Solange Caldas.

Rosana Almendares Artista Visual Especialista em Cinema e Design pela UNISINOS Novembro-2016

[i] Pescuma, Cristina – Arte Como Jogo – BLADE – 2015

As Maravilhas e outras histórias.... - Ana Flávia Baldisserotto

As Maravilhas e outras histórias de água, dunas e vento

Ana Flávia Baldisserotto
Mestre em artes visuais, coordenadora
do projeto Histórias Ambulantes.

Eles decidiram viajar. Viajar juntos. Voltar aos lugares onde parte da história familiar fora vivida décadas atrás. Certo dia, seu Air conta aos filhos já adultos a história da formação das Maravilhas, balneário localizado a poucos quilômetros da fronteira sul do país, onde os irmãos Almendares haviam passado os verões de sua infância e juventude nos anos 60 e 70. A escuta deste relato é o embrião do projeto, é ela que coloca o desejo em movimento. Como seria voltar àquela paisagem, olhar para aquele horizonte reto, vasto, e respirar aquele ar novamente? Como seria revisitar aquele cenário outrora tão familiar, hoje um ponto remoto, perdido entre dunas, mar e lagoas, no meio dos areais sem fim?
Partiram, então, a viajar. Viajar com o espírito de retorno, mas também de aventura. Partiram sabendo que em cada canto desta geografia meio esquecida, por vezes difícil, arredia, habitam ruínas quase invisíveis da nossa história. Partiram com olhos e ouvidos bem abertos e o espírito entregue às curvas e caprichos de um tempo mais lento. Um tempo regido pela voz e pelos silêncios de seus interlocutores, ensinado pelas ondulações da lagoa, pelo balançar das embarcações, pelas variações e ritmos do vento. Partiram com a entrega à duração de que se necessita para escutar o outro, e , acima de tudo, com a disposição para ser tocado por aquilo que não sabiam que estava lá, mas ainda assim, desejavam encontrar.
A exploração tem início justamente na Estação Balneária As Maravilhas, tema do primeiro vídeo e livro produzidos por Rosana e Renato. Por muito tempo isolada do restante do país por extensas planícies e intransponíveis alagados das terras do Taim, a cidade de Santa Vitória do Palmar é um dos centros gravitacionais do projeto. O lento processo de abertura das vias de acesso à cidade, por água e por terra, é narrado pelo professor Homero, que vai desvelar o jogo de forças que levou à construção e incipiente utilização do porto da cidade. Na sequência de viagens realizadas pela dupla, a Ilha dos Marinheiros será também um ponto de muitas idas e vindas. Admirada pela tranquilidade com que a vida ali caminha, e, especialmente, pela disposição do povo para conversar sem pressa, a ilha renderá belas histórias e encontros: seu Bolinha, seu Laurindo, dona Lucimar e tantos outros. Em São José do Norte, percebe-se logo, há um reservatório sem fim de relatos em espera. No episódio preparado para este projeto, somos apresentados a seu Octávio, que conta o caso curioso de um alemão espião que aportou de submarino na cidade à época da Segunda Grande Guerra. Já no episódio “A ilha de Feitoria e o povo que se apaixonou” somos convidados por seu Negrinho e seus amigos, a descobrir porque a ilha, que já teve mais de trezentos habitantes, conta hoje com um único morador.
As cinco narrativas em vídeo e os desenhos minuciosos que constituem os livros apresentados nesta exposição, buscam, em sua forma discreta e singela, apresentar-nos às paisagens humana e natural desta região através de fragmentos de memória que ainda pulsam, bem vivos, nos relatos de seus habitantes mais antigos. Nas trilhas destas viagens, nas margens da lagoa, na beira do mar, no pó da estrada, Renato e Rosana resgatam, ao final, não só algo de si, da memória familiar, mas também dimensões da história do Brasil que escapam a todos nós, bem como modos de subjetividade e formas de habitar o tempo, que parecem se encontrar em processo de decomposição e perda. São histórias como essas, “(…)da época em que nem todas as casas tinham rádio pra ouvir o noticiário(…)” – palavras de seu Octávio – que merecem e precisam ser contadas e escutadas. Histórias e lugares que nos restauram um sentido urgente de humanidade e que nos são, aqui, oferecidas por narradores generosos e compartilhadas com delicadeza por Rosana e Renato Almendares. Pequenas maravilhas.

Singularidade das Figuras- Gilmar Hermes

Singularidade das Figuras

Por Gilmar Hermes

A singularidade das figuras – maçãs, cata-ventos, pássaros, animais marinhos e agora cachorros – é o ponto de partida de Rosana Almendares. A partir dos estudos de luz e sombra com o tema da natureza morta, ela adotou a maçã no seu processo de trabalho. Escolheu aquela forma vermelha e redonda e fez poesia com esse pedaço de pecado em um novo contexto. A maçã, como o astro de uma encenação, tomou conta do espaço das telas, como se elas fossem um palco, e anunciou imediatamente sua presença. As pessoas olharam e viram, nas suas maçãs repetidas em diversos quadros, toda a força imaginária desse fruto, que impressiona pela sua inserção na cultura. Esse elemento começou a dialogar com outros – aves, flores, golfinhos e santos missioneiros – que passaram mais tarde a ser também protagonistas.

As maçãs foram multiplicadas e ganharam uma pele que não é só delas. Com uma técnica mista, Rosana elabora tramas, embora o resultado seja mais visual do que da ordem do tato. Lembrando as lições de Alice Brueggemann, Rosana diz que o artista deve valorizar o momento de criação e elaboração de um trabalho. É o resultado dessa preocupação que vai de fato ao encontro do espectador.

Na escolha de uma singularidade, as vivências pessoais e as imagens que circulam publicamente são levadas em conta. Elementos geométricos dialogam com as formas orgânicas, complementando ou contradizendo a vida, o sensível, em sobreposições e transparências. Nas telas grandes, a artista se permite a ser mais gestual e joga com os fundos. Há ainda uma relação mais corporal dos espectadores com essas telas maiores.

Chegou a vez dos cachorros. Eles tomam agora proporções enormes. Os seres humanos aparecem ali como curiosos diante dos seus gigantescos cachorrinhos. Na História da Arte, esses animais amigos já apareceram nos quadros de pintores renascentistas, seja Jan van Eyck ou Velázquez, como símbolos de fidelidade em meio a uma composição com várias figuras. Nos quadros de Rosana, eles são os privilegiados. A humanização da natureza ganha uma certa monumentalidade nesta nova série de quadros.

Gilmar Hermes – 2002

Jornalista e professor de História da Arte da Unisinos

A Arte de Rosana Almendares - Vera Lanes

A ARTE DE ROSANA ALMENDARES

Por Vera Lannes

O ser humano em sua constante busca da felicidade, questiona valores, afetos, relações … Deseja qualidade nas suas relações … Neste questionamento surgem a falta de tempo, a competitividade, a comunicação virtual, a globalização, como elementos debilitadores da qualidade nas relações . Esses debilitadores interferem na qualidade da atenção, do cuidado, da manifestação de amizade e companheirismo, na incondicionalidade dos afetos . Nesta busca incessante, o homem encontra no cão aquilo que está se tornando raro nas relações : a disponibilidade, o olhar atento, a alegria nos reencontros, a fidelidade, a ausência de cobrança, o afeto incondicional … Cresce consideravelmente o número de humanos para os quais a relação com seus cães torna-se imprescindível. A solidez desta relação alavanca a indústria de “pets” e movimenta milhões de dólares no mundo inteiro. Cria empregos e gera divisas. Faz amigos. Insere-se em todos os segmentos da sociedade .

Atenta a seu tempo e aos movimentos de sua época, a artista plástica ROSANA ALMENDARES traz à tona , com sua pintura, a importância dos cachorros nesse cenário . De tal forma e com tamanha intensidade eles tornam-se protagonistas em suas telas . São fortes, são sólidos, são vitais, os seus cachorros. Comunicam-se com o espectador em linguagem própria e o seu gigantismo parece revelar a intensidade desse diálogo e o tamanho de sua autenticidade . Falam por si, os cachorros de ROSANA ALMENDARES … Despertam emoções e sentimentos, traduzindo-se de forma imperiosa numa exigência da alma humana – a necessidade de relacionar-se .

VERA LANNES

PORTO ALEGRE , SETEMBRO 2002

Descartarte ou reciclarte, eis a questão - Décio Presser

Descartarte ou reciclarte, eis a questão

Por Decio Presser

Suzane Wonghon e Rosana Almendares consolidaram o talento através da pintura. Desenvolvem carreiras em São Leopoldo, buscando inspiração na figura, mas com visões diferenciadas. A inquietação criativa as colocou lado a lado numa pesquisa lúdica que originou a série de objetos denominados Descartável, Reciclável, Funcional reunidos nesta exposição. O reaproveitamento de embalagens e outros materiais da sociedade de consumo não é novidade. Inúmeros artistas contemporâneos já optaram por esta recriação. Das mais variadas formas, da ironia à diversão, sempre deram origem a trabalhos que se destacam pela originalidade artística dos criadores.
Tudo isso acontece num momento em que a arte enfrenta um impasse. A rapidez da comunicação, os artistas instantâneos, o consumo desenfreado tem proporcionado uma reavaliação do mercado e a falta de perspectivas faz com que se busquem saídas mais adequadas à sociedade contemporânea. Para Suzane e Rosana a pintura deixou o papel principal e passou a ser coadjuvante. Nesta pausa dos pincéis, elas encontraram nos utensílios descartáveis, o material ideal para criar objetos, interrompendo o destino final, o lixo.

Estamos vivenciando o predomínio da superficialidade. Também presenciamos tempos de grandes avanços tecnológicos, mas pagamos o preço por vivermos sob a idéia de que tudo fica obsoleto rapidamente. Perdemos a estima pelas coisas, quebramos a ligação afetiva e sentimental aos objetos e em última instância, às pessoas. Nestas contradições, com as quais precisamos aprender a viver, os objetos descartáveis parecem representar muito bem. Se por um lado não podemos negar as fantásticas conquistas e benefícios alcançados através dos avanços tecnológicos, por outro não podemos fechar os olhos às conseqüências ou aplicações negativas destas conquistas.
Empresas lançam produtos no mercado já sabendo que, dali a alguns meses, haverá uma nova versão mais atualizada. O pensamento está apenas no lucro , deixando o público se levar por modismos e idéias de marketing.

No momento, Rosana trabalha fundamentalmente com as colherinhas e pazinhas de cafezinho. Elas existem em diversos formatos e juntas proporcionam um universo fascinante. Seu objetivo é mostrá-las sob diferentes formas de expressão, ou seja: em painéis de tecido temos a gravura e o desenho; nas caixas temos fotogramas, imagens digitais e assemblage O resultado é um trabalho que nos remete ao concretismo totalmente distanciado da figuração pictórica da artista.. Optando por outra vertente, Suzane utiliza embalagens de papelão de leite para construir um mini-zoo de mamíferos, alusão ao alimento contido nas caixas descartáveis. Aqui a pintura aparece no acabamento, mas a cola é que proporciona forma e durabilidade a estes “animais”. É uma leitura bem humorada que se contrapõe ao geometrismo explorado por Rosana. O resultado é um conjunto que instiga, questiona e diverte, mas totalmente integrado aos preceitos da arte vigente nestes tempos fugazes.
Aqui o descartável não aparece através de um ato, uma performance, uma atitude, e sim sob uma abordagem estética. O ato de tomar um objeto criado com o objetivo de ser descartado imediatamente após o seu uso e inseri-lo em um outro contexto, propõe uma parada no tempo para pensarmos naquilo que é chamado de cultura do descartável. É o lixo que pode virar arte quando manipulado com inteligência e talento.

Decio Presser
Jornalista-Julho 2006

Jogo do Velho - Fabrício Carpinejar
JOGO DO VELHO

Rosana Almendares acolchoa as paredes. Tudo o que é descartável vira objeto de arte, orvalho de árvore no portão. Sua exposição é como uma casa andando. Os objetos repetem desenhos, com fundo em preto, branco e cinza. A repetição é ritmo.
A linguagem é ritmo repetido. Tal como o amor que pede a reincidência. Tal como as batidas de um coração que não se enjoa de começar.

São imensos jogos da velha, em que o imprestável torna-se pensamento, o impensável transforma-se em prestável. Talvez um jogo do velho: o que é abandonado pelo consumo volta a reintegrar a sociedade liberto do prazo de validade. O lixo converte-se em observação lírica do cotidiano, caligrafia caprichada. A beleza exubera, harmônica, calculada, como partituras de um músico afixadas na parede. As gavetas abertas derramam justamente a música das formas. O que serão as figuras? Tulipas? Colheres? Fósforos? Tochas? Cotonetes? Pirulitos? Pequenos travesseiros de bonecas? Ou um modo de envelhecer com dignidade?


Fabrício Carpinejar,
poeta – 2005

Descartável - Rosana Almendares

DESCARTÁVEL
Na série de trabalhos que intitulei DESCARTÁVEL, tenho explorado a forma, a transparência, a delicadeza e as linhas do objeto que elegi como representante deste tema, ou seja, a colher de cafezinho descartável.

Ao criar desenhos a partir da forma deste objeto, ao fotografar, filmar e manipular digitalmente as imagens resultantes deste processo, descubro outras facetas deste objeto que passa desapercebido no nosso dia-a-dia. Tanta fragilidade numa forma que repetida inúmeras vezes cria imagens intrincadas, semi-transparentes, uma verdadeira trama de linhas sinuosas.

Explorar e descobrir tantas sutilezas e possibilidades desta forma me faz pensar que podemos, e na verdade devemos, parar e refletir sobre o ato de descartar que está tão impregnado no nosso comportamento.

Diariamente uma infinidade de produtos que têm por objetivo facilitar nosso dia a dia , nos são oferecidos. Facilidade, praticidade, eficiência, rapidez e como conseqüência, muito resíduo.
Em nossos atos cotidianos, repetitivos e automáticos, nos desfazemos de tudo o que consideramos descartável. Ao repetir inúmeras vezes a forma da colher de certa forma estou imitando este ato cotidiano, mas crio outras possibilidades que interrompem o destino inevitável de tudo que é descartado – os lixões das cidades.

As conseqüências deste descartar que encaminha toneladas e toneladas diárias de resíduos para estes lixões, não se restringem ao meio ambiente, o que já é desastroso, mas atingem todo um sistema social.

É fundamental então, despertarmos.

É necessário acreditar que existem outros caminhos.

Rosana Almendares
2007

Em Série - Rosana Almendares

Os trabalhos ora apresentados sob o título Em Série são uma decorrência da pesquisa que denominei Descartável e que vem sendo desenvolvida nos últimos três anos. Em Descartável o foco era a transitoriedade de certos produtos feitos com objetivo de serem imediatamente descartados, logo após o uso. Ao trabalhar com estes objetos, constatei que estava interrompendo uma linha de tempo muito curta entre sua utilização e descarte. Essa percepção me fez refletir sobre o quanto levamos para nosso modo de vida essa atitude de encarar tudo como facilmente descartável. O quanto não consideramos o resultado desse descartar tanto no meio ambiente quanto nas atitudes com outros seres humanos.

No desenrolar do trabalho fui me atendo à forma dos objetos, principalmente o da colher descartável, utilizando a repetição da mesma, em diferentes composições. Passei então, a observar outros objetos produzidos em série, não exatamente descartáveis, mas, da mesma maneira, transitórios. Objetos que, no desempenho de sua função, não nos chamam a atenção por sua forma, mas pela informação que contém. As etiquetas, agora, fazem parte dos trabalhos. Sobre postas a imagens digitalizadas, sofrem alterações no seu conjunto visual, conforme a maneira como são utilizadas. O foco passa a ser a produção em série, a massificação, a uniformização.
O processo de impressão digital já traz a idéia da produção em série. Reforça a tão propagada questão da reprodutibilidade técnica da obra de arte, em contraponto ao caráter único da mesma, tratado por Walter Benjamin. O processo digital, aqui, não é utilizado apenas para reproduzir a imagem de uma obra original, mas tratado como ferramenta de criação. Revela temas como o da produção em série de objetos de culto, como o trabalho intitulado “Crucifixo para Espelho Retrovisor”, que pensa os conceitos de valor de culto e valor de exposição, numa sociedade massificada. Esses conceitos de transitórios e descartáveis trazem à tona questionamentos que vão muito além das necessidades demandadas. Alertam para o fato da transitoriedade ter se inserido na contemporaneidade, ora como elemento facilitador, ora como elemento descartável e, até mesmo como fator desencadeante da banalização. Se por um lado, facilita, por outro, inconteste, aumenta nossa responsabilidade no sentido de provocar atitudes que façam a diferença para melhor.  Esse trabalho dos “Em Série” pretende, de certa forma, chamar a atenção para situações absolutamente habituais no nosso cotidiano e que, por essa mesma habitualidade, podem se tornar imperceptíveis. Perceber pode ser o início da diferença.

Rosana Almendares
2007

Olhares e Transcendência - Magno Fernandes dos Reis

Olhares e Transcendência

Por Magno Fernandes dos Reis

Assim de entrada, vemos um jogo de formas identificáveis com alguma realidade visível, mas verossímeis. O olho é a realidade como vem colocada e experimentada pela alma, e a alma, se não abranger e unificar o objeto e o sujeito da experiência, não é total. Mesmo que o mercado de arte insista em anunciar que a figura está completamente banida do universo da arte contemporânea, Rosana Almendares realiza figurativo o espaço, partindo do próprio espaço. O conceito desaparece, dissolvendo-o nos olhos dos cães. A alma do quadro não é conceito. É a poesia do olhar…
Nos trabalhos da artista percebemos a antítese da abstração na figura. No entanto, Almendares parte do cão para deduzir no olhar o conhecimento. Mas esses olhares são simbólicos, abstrações da realidade de nosso tempo. Olhos tristes, alegres e uma vítima: o homem, o medo e a esperança. Almendares reforça o conflito entre a vida e a morte. O olho do cão enquadrado retrata o clima de tensão entre as imagens de violência produzidas pelo homem e a realidade poética omitida em conseqüência da pobreza e da exclusão social, tema dominante no conjunto de trabalhos apresentados. O olho simboliza o sol, a eterna vigilância, a sabedoria e reflete o medo da história. O cão é símbolo da fidelidade e proteção de amor cego e obediência.
Os olhos dos cães são simplesmente pretexto para a artista reinventar um espaço poético que o homem tem recusado a construir. Almendares constrói uma linguagem própria, mágica e extraordinária negando as imagens da televisão. O que são seus cães, de cor suave, e ao mesmo tempo congelados, senão monumentos de uma cidade ideal, uma cidade que recusa a realidade, a psicologia da violência, uma cidade transposta nos olhos dos cães. O grande significado no trabalho de Almendares é o desenho pela técnica refinada que cria um drama feito de ar luminoso filtrado pela luz. Almendares mostra outra face da linguagem e da vida dos habitantes dos centros urbanos. Nos olhos amplia questões sociais, tais como a fome e a violência que se mistura com as faíscas que exclui o ser humano.

Magno Fernandes dos Reis
Jornalista formado pela Universidade Brás Cubas, em São Paulo, pós-graduado em Jornalismo pela FAFI-BH e mestrando em História da Arte pela Universidade Nacional Autônoma do México-UNAM. Possui vários artigos escritos, sobre política e arte. Atualmente é colaborador da Revista Este Sur, de Chiapas – México. Leciona História da Arte no Curso Técnico de Restauração na Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP, filosofia e história contemporânea Faculdade de Filosofia, ciências e Letras do Alto São Francisco e história contemporânea na Faculdade de Jornalismo do Centro Oeste de Minas Gerais- FADOM. É membro do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e da Associação Brasileira de Críticos de Arte – aica seção Brasil.

Olhares - Gilmar Hermes

Olhares

Por Gilmar Hermes

Rosana Almendares criou o hábito de eleger seres/coisas que são, à maneira da arte, ritualizados em suas pinturas. Na superfície da tela enfoca as manifestações da vida e promove assim a admiração em torno delas. Estamos a contemplar a coisa que agora existe como manifestação de um fazer artístico. A figura – como uma linha ou uma mancha colorida – é uma manifestação vital e plástica da realidade.
A artista faz nesta exposição mais um exercício com as figuras de cachorros em grandes telas. Se a escolha anterior da maçã foi feliz, muito mais é a do cachorro. Voltando às primeiras civilizações, é possível ver representações de animais que ganham um sentido desde o início dos tempos, simbolizando valores que se referem aos anseios humanos. Poderia-se encontrar no próprio cão – assim como no gato, no leão, no touro ou nas aves – uma série de sentidos. Contudo, antes de mais nada, o cachorro é Pop. Do ambiente doméstico ele saltou para os filmes e desenhos animados de Holywood e hoje é uma febre da cultura urbana, prometendo companheirismo.
Nem sempre, porém, a humanidade ampara o cachorro, e ele vai ser o cão de rua, o vira-lata, a mercê do que a cidade permite em seus espaços espremidos. Há um lado humano no cão, que sobretudo o seu olhar transparece. Esse animal compartilha do espaço da casa, afetua-se como se fosse um membro da família, mas pode ser abandonado e estar sujeito à crueldade de quem decide o seu destino.
Dentro do seu ateliê, os artistas não se isolam do mundo, e sim reencontram a realidade através do seu fazer. O olhar de Rosana sobre a vida começa com a definição de uma superfície de cor, fria ou quente, clara ou escura. É a primeira manifestação de um sentimento que vai ser revelado através das figuras e sua inserção nas composições.
Sensível à terra pantanosa dos valores globais, Rosana faz com que seus cachorros evoquem o sentimento de fragilidade que todos nós estamos sentindo diante das manifestações de poder dos nossos dias. Seu trabalho reflete o cotidiano, hoje globalizado em função das tecnologias. A possibilidade de ver, ao lado da impossibilidade de agir, nos deixa tão perplexos como os cães diante da arbitrariedade dos seres humanos.

Gilmar Hermes – jornalista e professor de História da Arte na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) – 2003

Desenhos e Pinturas sobre papel

DESENHOS E PINTURAS SOBRE PAPEL

Por Gilmar Hermes

Na sua exposição em maio deste ano na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, a artista plástica Rosana Almendares trabalhou com telas de grandes dimensões que, infelizmente, não podem ser expostas no Espaço Cultural/Hemeroteca em função do seu tamanho. Contudo, ao conhecer este local de exposições e ver a possibilidade de mostrar o seu trabalho no Centro de Ciências da Comunicação da Unisinos, ela propôs-se a retomar um aspecto que caracterizou o início de suas pesquisas visuais, o desenho sobre papel. Tendo uma trajetória que foi marcada nas suas últimas mostras pela pintura, o resultado dessa proposta são trabalhos em técnica mista, mesclando o uso de grafite, pastel seco e oleoso, tinta acrílica e colagens. Temos de considerar também que Rosana não se prende somente aos seus processos criativos de uma forma estrita. Há um diálogo com o mundo, quando se vive uma nova crise política internacional, além de uma conversa com a história da arte, mesmo que intuitiva.
Os trabalhos de Rosana têm sido marcados pela escolha de um determinado elemento, a exemplo das maçãs, que estiveram muito presentes em várias séries. Elas aparecem em composições de caráter fortemente abstrato, e trazem por trás de si a tradição da temática da natureza-morta, que é a pintura de objetos inanimados, mas que se vinculam à vida, especialmente quando são flores e frutas, na sua efemeridade. Posteriormente, no lugar das maçãs, surgiram os cachorros, verdadeiros companheiros da solidão urbana. Eles é que levaram Rosana a criar paisagens nesta série de trabalhos apresentados nesta exposição.
Os cenários sombrios que Rosana criou dialogam com a tradição da pintura paisagística, que teve como grande momento o Romantismo. O alemão Caspar David Friedrich evocava o sentimento do sublime com o personagem solitário de sua pintura O Cantor Diante do Mar de Névoa, no momento em que os artistas plásticos assumem o caráter subjetivo de sua atividade e, ao mesmo tempo, emerge intensamente a problemática das relações do indivíduo com a sociedade organizada. Nessas paisagens de Rosana, não há um homem, mas um cachorro.
Do Romantismo, desencadeou-se o Realismo e o Impressionismo, esse último marcado pelas experiências que tratam a percepção do mundo sobretudo como um fenômeno óptico. Cores brilhantes, luminosas, começaram a aparecer nas paisagens. Nesses desenhos de Rosana, predomina o preto-e-branco, é um impressionismo ao contrário. É uma possibilidade de perceber o mundo hoje, como num pesadelo. No estado de consciência do sono, muitas vezes, encontramos a nossa verdade, verdade que se torna coletiva quando é transformada em objeto de arte.

Gilmar Hermes – Jornalista e Professor de História da Arte na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) – 2003
ghermes@yahoo.com

Desenhos e Pinturas sobre papel - Rosana Almendares

DESENHOS E PINTURAS SOBRE PAPEL

Por Rosana Almendares

O artista é submetido diariamente, em seu atelier, a uma reflexão sobre seu meio. A cada novo trabalho, a cada experiência, novas reflexões são instigadas tendo como conseqüência novas representações.

Nesta exposição deixei-me levar pelo grande prazer de desenhar.

Reencontrei-me com o papel. Senti novamente a reação deste suporte aos materiais que vinha utilizando sobre tela. E esta reação é fantástica. O papel também quer “dar sua opinião”. A cada pincelada ele reage de uma forma diferente e cria-se um diálogo. O diálogo próprio do papel.

Senti nestes trabalhos, a necessidade de representar o meio urbano e assim inseri o cachorro neste meio, como um observador das atitudes humanas e como vítima involuntária dos resultados dos atos do homem.

Nossa evolução tem sido rápida. Os avanços tecnológicos quase não nos dão tempo de desfrutar o que vai sendo inventado, criado e já descartado. Essa rapidez ou pressa parece não deixar espaço para considerações com relação às conseqüências de nossas criações no que diz respeito à natureza e é claro, ao próprio homem. Assim ao mesmo tempo em que maravilhas são criadas logo atrás vêem as proibições na tentativa de recuperar espaços já poluídos, devastados, corpos já contaminados, enfim….

Neste sentido o trabalho intitulado “Proibido?” que faz parte desta mostra, é resultado desta reflexão. Assim como o “FECHADO”, trabalhado em preto, refere-se a espaços urbanos já super lotados e “ABERTO”, trabalhado em branco, evoca espaços amplos e convidativos.

A exposição é composta por onze trabalhos, sendo oito nas dimensões de 50 x 70cm e três 100 x 70cm. Foram utilizados diferentes materiais como grafite, pastel seco e oleoso, nanquim e tinta acrílica sempre sobre papel.